Apresentação pública da Associação Olhar 21

Ficha técnica da notícia
Título: Apresentação pública da Associação Olhar 21
Data de publicação: 2010-03-23 11:42:00
Fonte: Escrito por João Henriques, in Diario de Coimbra - 22 de Março de 2010
Autor: Olhar21.com

É preciso olhar para sentir a diferença
 
A deficiência é, em grande escala, olhada com - queira-se ou não - caridade. A trissomia 21 não é diferente. O poeta dizia que «os olhos são o espelho da alma». Muitas vezes, não é preciso dizer o que quer seja para se perceber aquilo que se sente, olhando apenas nos olhos. Saber olhar é fundamental para colaborar na inclusão daqueles que, por uma razão ou por outra, nasceram ou tornaram-se diferentes. Vale a pena, por isso, pensar nisto: olhe o outro como o outro, mas colocando-se no lugar do outro. O importante é vê-lo como um cidadão como os outros. Com direitos como todos os outros.

Ontem, Dia Mundial da Trissomia 21, Coimbra foi palco da apresentação pública da Associação Olhar 21, nascida da união de dois grupos, um de Coimbra e outro de Mira, de pais e familiares de cidadãos com trissomia 21. Com sede na antiga escola primária dos Palheiros, na freguesia de Torres do Mondego, a associação de apoio à inclusão do cidadão com trissomia 21 quer percorrer o «caminho sempre presente», estabelecendo, logo à partida, a pretensão de ter a funcionar, já este ano, um centro de desenvolvimento à semelhança do que existe em Lisboa e no Porto.

Paulo Serra, presidente da Direcção da “Olhar 21”, divulgou os quatro objectivos da associação. Além de pretender «promover e facilitar a inclusão e a integração social global do cidadão com trissomia 21», quer «sensibilizar a comunidade em geral para as questões relacionadas com a trissomia 21, fazendo a sua divulgação junto das entidades oficiais, empresas, estabelecimentos educativos, desportivos e culturais». «Contribuir activamente para a defesa dos legítimos direitos e interesses do cidadão com trissomia 21» é o terceiro objectivo.

Como quarto propósito, a “Olhar 21” deseja «fomentar e implementar acções relacionadas com os aspectos científicos, educacionais, profissionais e sociais da trissomia 21». Segundo Paulo Serra, «o apoio às famílias é a base desta associação e não nos vamos esquecer delas», assumindo a vontade de querer «mudar as mentalidades». «Acreditamos na escola inclusiva e na sociedade espelho da ausência de preconceito e da verdadeira igualdade de oportunidades», avançou, antes de concluir: «Não vamos desistir, vamos fazer tudo pela integração plena dos nossos filhos. Seremos persistentes e vamos conseguir com a ajuda de todos».
 
 
Cidadão pleno de todos os direitos
 
Patrono da “Olhar 21”, Laborinho Lúcio considerou a associação um «verdadeiro acto de cidadania: material, activa e de instrução», manifestando querer ser «um parceiro de acção e presente nos momentos bons, mas também difíceis que a Associação Olhar 21 irá atravessar». A defesa do «sou um cidadão como os outros» é assumida pelo juiz conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça, revendo-se no objectivo principal da associação que passa pela inclusão, assumindo-se esta como «um verdadeiro instrumento de trabalho».

«O respeito à diferença passa por ver que estas pessoas são um outro e sendo um outro são iguais a nós», afirmou Laborinho Lúcio, que, ontem, na Sala Francisco Sá de Miranda - completamente esgotada -, na Casa Municipal da Cultura, apelou «à recusa e ao combate ao estigma». «A designação “Olhar 21” é felicíssima», assumiu o patrono da associação.

Solicitando que «ao olhar que fiquemos para ver» o que os portadores do síndrome de Down ou trissomia do cromossoma 21 são «capazes de produzir e acrescentar», Laborinho Lúcio lembrou que «este cidadão antes de ser portador de trissomia 21 é um pleno cidadão de todos os direitos», prosseguiu. A finalizar, Laborinho Lúcio destacou a necessidade do «confronto com a dignidade humana» e da «procura do sentido último da igualdade», considerando que «o fundamental não é desistir perante os obstáculos, mas vencê-los».
 
 
Alunos da ESAC entregaram donativo

«Sentir a diferença de ter trissomia 21» e «pode acontecer a qualquer um» foram frases escutadas durante as intervenções de Mafalda Nogueira, técnica superior do ensino especial e reabilitação da Associação Portuguesa de Portadores de Trissomia 21/Diferenças, em Lisboa, e de Marcelina Souschek, da Associação Pais 21, também em Lisboa. Ontem, os alunos do mestrado de Engenharia Alimentar da Escola Superior Agrária de Coimbra (ESAC) entregaram um donativo de 729,70 euros à “Olhar 21”.

Antes, Carlos Encarnação sublinhou que «convém que a sociedade vá despertando e comprometendo com estas coisas e intervenha com novas respostas». «A “Olhar 21” lança um apelo que não poderá ficar sem resposta», avançou o presidente da Câmara de Coimbra, antes de acrescentar: «Estão criadas as condições para desenvolver um trabalho profícuo». «Ele é o outro. Enquanto não tivermos esta perspectiva e não formos o outro, nunca teremos uma perspectiva social. Para isso acontecer, é preciso que o problema seja meu também», concluiu Encarnação.




Apresentação pública da Associação Olhar 21